A teoria do “empurrãozinho”

Cada vez tem sido mais difícil estabelecer e sustentar uma alimentação saudável com a maior oferta de alimentos de baixo custo e ao mesmo tempo calóricos, ricos em gordura, açúcar e sódio. Mesmo sendo sabido que esses alimentos aumentam o risco de doenças cardiovasculares e diabetes, os consumidores não aprovam medidas de limitação de produção ou venda desse tipo de produtos, exigindo a autonomia de escolha. Para incentivar uma alimentação mais saudável sem infringir a escolha individual, diversos pesquisadores utilizam de “empurrões” como estratégias. Conhecida cientificamente como a Teoria do Empurrão, é um conceito da ciência comportamental que descreve como sugestões indiretas e reforços positivos podem influenciar o comportamento e a tomada de decisões dos indivíduos.

Dessa forma, um estudo realizado nos salões de jantar da Universidade de Harvard durante o ano letivo de 2014 a 2015 utilizou-se de semáforos (rótulos verdes para opções saudáveis, amarelos para neutros e vermelhos para menos saudáveis) e a arquitetura de escolha (tornando opções saudáveis ​​mais convenientes para selecionar, como colocar vegetais no início). Ao contrário do esperado (aumento da venda de itens verdes e diminuição de itens vermelhos), não houve mudanças estatisticamente significativas, porém houve várias consequências não intencionais. Um segundo estudo da mesma intervenção coletou respostas pós-intervenção relacionadas a distúrbios alimentares: 16% dos participantes acreditam que os rótulos de semáforos aumentavam o risco de desenvolver transtornos alimentares, enquanto que 47% disseram que podem exacerbar os transtornos alimentares já existentes.

Com esse outro estudo pode ter outra percepção dos “empurroões”, podendo ser, na verdade, relacionado ao termo biopoder do filósofo Michel Foucault, já que a manipulação sutil de forças sociais podem ser eficazes em influenciar comportamentos alimentares individuais, mas eles também podem adicionar um tom moralista para alguns indivíduos que já se preocupavam com a alimentação desordenada. Essas consequências não intencionais foram surpreendentes, dado que a literatura sobre a teoria do empurrão tem sido positiva em geral. Embora haja pesquisas limitadas sobre se medidas de prevenção da obesidade, como rotulagem de alimentos, podem exacerbar transtornos alimentares, um estudo recente que randomizou mulheres para usar cardápios rotulados ou não rotulados com calorias descobriu que mulheres com anorexia nervosa ou bulimia nervosa consumiram significativamente menos calorias e mulheres com o transtorno da compulsão alimentar compulsiva consumiram significativamente mais calorias quando se utilizaram cardápios rotulados com calorias, comparados àqueles que utilizavam não rotulados.

Esses resultados trouxeram a descoberta de que a rotulagem pode levar a consequências não intencionais para aqueles com risco de transtornos alimentares. Sendo dessa forma necessário refletir se é correto e justificável utilizar de uma estratégia em que se beneficia determinadas pessoas e prejudica outras. Assim, é essencial fundamentar a aplicação na teoria, pensar criticamente sobre os efeitos colaterais não intencionais e utilizar pesquisas de métodos mistos para informar e avaliar várias estratégias. Somente através da junção de evidências estatísticas com uma estrutura conceitual, etnografia e avaliações qualitativas longitudinais em todas as fases (pré, durante e pós-intervenção) podemos começar a entender as forças sociais que moldam o comportamento e são mais inteligentes, seguras e sustentáveis.

 

Texto por João Motarelli e Julia Tott Mormillo

 

Michael W. Seward & Derek R. Soled (2019): Unintended consequences in traffic-light food labeling: A call for mixed methods in public health research, Journal of American College Health

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